Nota Técnica
Recursos
Humanos e Infra-Estrutura
para Coleções
Microbiológicas
Lara Durães
Sette
Coleção
Brasileira de Microrganismos
de Ambiente e Indústria
(CBMAI), Divisão de
Recursos Microbianos, CPQBA/UNICAMP,
CP 6171, CEP 13081-970, Campinas,
SP. lara@cpqba.unicamp.br
As coleções
de materiais biológicos
vão de pequenos centros
privados a grandes centros
de serviço e são
parte essencial da infra-estrutura
de apoio as ciências
da vida e biotecnologia, possuindo
como objetivo principal prover
ao usuário os produtos
e/ou serviços oferecidos,
utilizando técnicas
e processos que certifiquem
a qualidade e que estejam
de acordo com as leis, regulamentos
e políticas nacionais.
Como Centros de Recursos Biológicos
(CRBs), podem conter coleções
de organismos cultiváveis
(microrganismos, células
de plantas, animais e humanas)
organismos viáveis
mais ainda não-cultivados,
células e tecidos.
A importância da conservação
ex situ de recursos genéticos
microbianos, vegetais e animais
já é reconhecida
como sendo uma prática
indispensável ao desenvolvimento
da ciência e tecnologia
em diversos setores de importância
sócio-econômica.
O material biológico
representa um novo insumo
tanto no ambiente da pesquisa
e desenvolvimento quanto nos
processos produtivos, cujo
tratamento requer a implementação
de um sistema que permita
assegurar, para todos os efeitos,
que um dado material biológico
mantenha as características
nele identificadas ou a ele
atribuídas. Neste contexto,
as coleções
biológicas ou CRBs
são essenciais para
o suporte ao desenvolvimento
da biotecnologia, provendo
insumos, material biológico
certificado e informações
associadas. Funcionando como
centros de conservação
da biodiversidade e de material
genético, os CRBs são
responsáveis pela aquisição,
caracterização,
autenticação,
preservação
e distribuição
de material biológico
com conformidade assegurada.
A exploração
da diversidade genética
e metabólica dos microrganismos
visando obtenção
de produtos biotecnológicos
(compostos comerciais) ou
para transformação
de substratos em produtos
de maior valor agregado vem
sendo realizada há
algum tempo. Entretanto, para
o pleno desenvolvimento dessas
atividades culturas viáveis,
puras e autenticadas devem
estar prontamente disponíveis.
Assim, procedimentos específicos
para aquisição,
manutenção e
distribuição
são exigidos nas coleções
de serviço envolvendo
material biológico
microbiano (e.g., arqueas,
bactérias, fungos filamentosos,
leveduras, plasmídeos),
e para que estas coleções
alcancem boas práticas
com relação
aos serviços oferecidos,
tais procedimentos devem ser
implementados.
A capacitação
técnica e operacional
das coleções
microbiológicas são
fatores determinantes para
o desempenho das atividades
de apoio à comunidade
acadêmica e desenvolvimento
tecnológico (biotecnologia),
o que demanda a necessidade
de captação
de recursos humanos qualificado
e infra-estrutura apropriada.
A equipe de profissionais
e colaboradores deve possuir
qualificação,
treinamento e competência
em microbiologia, que seja
relevante ao escopo da Coleção,
sendo recomendado que para
cada membro da equipe as responsabilidades
e os objetivos específicos
sejam definidos e documentados.
Para evitar a contaminação
de amostras e os riscos de
infecção, os
membros da equipe devem possuir
conhecimento dos procedimentos
de higiene e normas de segurança,
e seguir procedimentos apropriados
para a manipulação
e descarte do material biológico
de origem microbiana, como
definido pela Organização
Mundial de Saúde e
como interpretado pelas leis,
regulamentos e políticas
nacionais. Isto é válido
também para os organismos
geneticamente modificados
(OGMs).
É de fundamental importância
que as coleções
microbiológicas de
serviço, sejam gerenciadas
por um profissional qualificado
(Curador) com experiência
e conhecimento não
apenas sobre os microrganismos,
seus requerimentos de crescimento
e preservação
e suas propriedades e aplicações
potenciais. O curador deve
também conhecer os
procedimentos operacionais,
as técnicas e os serviços
oferecidos pela Coleção.
A expansão do acervo
deve ser um dos focos principais
das coleções,
as quais devem encorajar continuamente
o depósito de material
biológico de importância
para o seu escopo, bem como
realizar intercâmbio
ativo de material com outras
instituições
e coleções tanto
nacionais quanto internacionais.
As solicitações
de depósito devem ser
submetidas a uma análise
prévia para verificação
de enquadramento no escopo
do acervo e nos níveis
de biossegurança da
coleção. Os
materiais de risco biológico
devem ser devidamente identificados
e a coleção
deve fazer uso das ferramentas
disponíveis para assegurar
que todas as linhagens ou
culturas estejam classificadas
no grupo de risco apropriado
(risco biológico 1,
2, 3 e 4 de acordo com a classificação
do Conselho Europeu, Diretiva
93/88/EEC).
Sistemas eficientes de documentação
e registro (tanto em meio
impresso quanto na forma eletrônica)
do material depositado devem
ser adotados, incluindo a
elaboração de
formulários (ou fichas)
de depósitos os quais
devem ser devidamente preenchidos
pelo depositante. As informações
requeridas nestes formulários
variam entre as coleções.
Entretanto, dados mínimos
para a documentação
e registro de linhagens devem
ser exigidos, tais como: nome
do organismo; número
da linhagem; número
em outras coleções;
histórico; tipo de
organismos; restrições;
condições de
crescimento; dados de isolamento
(data, nome e localidade);
dados taxonômicos (características
morfológicas, fisiológicas);
referências bibliográficas;
nome, endereço e assinatura
do depositante. Sistemas informatizados
de gerenciamento sobre o acervo
permitem a rápida rastreabilidade
de informações
associadas e a estruturação
de catálogos on-line,
com atualização
periódica do acervo
(acessos) e informações
associadas. Alguns sistemas
de informatização
permitem incorporar ao registro
das linhagens dados diversificados,
tais como: fotografias, seqüências
de DNA, procedimentos padrão
para formulação
de meios e reagentes, propriedades
específicas, aplicações
potenciais, entre outros.
O recebimento e estocagem
de material nas coleções
microbiológicas devem
ser documentados e realizados
com base em procedimentos
seguros, e de preferência
em áreas apropriadas
para estas finalidades. Os
diferentes tipos de material
biológico microbiano,
principalmente os desconhecidos
ou de potencial risco biológico,
devem ser abertos e manipulados
em câmaras especiais
(e.g., fluxos laminares) em
laboratórios capacitados
e autorizados que garantam
a segurança durante
a abertura e o processamento.
As coleções
que disponibilizam material
biológico para o acesso,
devem realizar a distribuição
apenas para instituições
públicas e privadas,
sejam de pesquisa, serviços,
governamentais, ensino ou
indústrias. Por razões
de segurança e saúde
pública, linhagens
não devem ser enviadas
para endereços particulares.
Todos os pedidos devem ser
formalizados e documentados,
com uma explanação
breve da utilização
pretendida para o material,
e devem ser assinados por
um profissional qualificado
e autorizado a manipular a
linhagem requerida. Em casos
específicos de linhagens
de microrganismos patogênicos
ou potencialmente patogênicos
para animais, humanos e/ou
plantas, a solicitação
deverá incluir uma
declaração assinada
do solicitante assumindo os
riscos e responsabilidades
associados ao recebimento,
manipulação,
armazenamento e uso dos microrganismos/material
em questão. Catálogos
impressos e/ou eletrônicos
contendo o material microbiológico
disponível para distribuição
devem ser produzidos e atualizados
regularmente, e se o fornecimento
de linhagens não puder
ocorrer dentro do tempo de
entrega específico
da coleção,
o cliente (usuário)
deve ser contatado e informado
quanto à provável
data de recebimento do material
solicitado.
Quanto ao envio de material
microbiano, as normas de postagem,
incluindo embalagem e rotulagem,
devem ser atendidas. De acordo
com os regulamentos da IATA
(International Air Transport
Association), o profissional
responsável pela distribuição
do material biológico
deve ser treinado por um instrutor
capacitado da IATA, principalmente
nos casos de distribuição
de microrganismos pertencentes
aos grupos de risco 2, 3 e
4, para os quais padrões
definidos de embalagem devem
ser adotados. Microrganismos
não infecciosos (risco
biológico 1) podem
ser enviados por correio aéreo
de acordo com os requerimentos
de postagem universal (Universal
Postal Union, UPU). As coleções
devem, obrigatoriamente, ter
controle sobre a distribuição
das linhagens, principalmente
as de potencial risco biológico,
assegurando a rastreabilidade
das informações:
para quem distribuiu a linhagem,
quando, quantas ampolas, para
que localidade, entre outras.
Deve, também, impedir
que sejam repassadas para
terceiros por meio de um Termo
de Compromisso com o solicitante
para evitar a ocorrência
de qualquer tipo de acidente,
sejam eles involuntários
ou por má fé
como a prática do bioterrorismo.
Com relação
à manutenção
e preservação
de material biológico
de origem microbiana, diferentes
métodos podem ser utilizados,
dependendo das necessidades
e do escopo da coleção.
Na maioria das vezes, os métodos
de preservação
mais adequados e recomendados
exigem equipamentos sofisticados
e recursos humanos treinados
e habilitados, tanto para
operar o equipamento quanto
para desempenhar o protocolo
operacional estabelecido.
Por medidas de segurança
e para minimizar a possibilidade
de perda de linhagens, cada
cultura deve ser mantida por
pelo menos dois métodos
distintos. Entretanto, de
acordo com as normas internacionais
(Organisacion for Economic
Co-operation and Development,
OECD) é recomendado
que pelo menos um dos métodos
utilizados seja a criopreservação
(ultracongelamento) ou a liofilização,
visto que, para muitas linhagens
eles são considerados
como métodos com menos
riscos de alterações
genéticas, além
de garantir a preservação
por longos períodos
de tempo. Ainda, é
recomendável que um
back up do acervo principal
deva existir em local distinto
e separado, evitando os riscos
de perda de importantes recursos
genéticos por motivos
de incêndio, enchentes,
terremotos, guerras, dentre
outras catástrofes
ou intempéries da natureza.
Além da aquisição,
manutenção e
distribuição
de material biológico,
as coleções
de culturas microbianas podem
oferecer uma variedade de
serviços com o objetivo
de atender as necessidades
das comunidades científicas
e industriais, como por exemplo,
identificação
de microrganismos, depósito
em diferentes categorias (público,
confidencial, para fins legais
e para fins de patentes),
programas de pesquisa, consultoria,
cursos e treinamentos.
Serviços de autenticação,
caracterização
e identificação
taxonômica requerem
a atuação de
profissionais especializados
(taxonomistas) para os diferentes
organismos do escopo da coleção.
As técnicas utilizadas
para a caracterização
microbiana devem envolver
uma abordagem polifásica,
incluindo análises
de morfologia, fisiologia,
características bioquímicas
e estudo dos ácidos
nucléicos (DNA). Algumas
destas técnicas, como
por exemplo, os métodos
moleculares, demandam infra-estrutura
específica, recursos
humanos especializados e envolvem
altos custos de processamento.
Os programas de pesquisa,
cursos e treinamentos devem
ser parte da coleção
ou das atividades dos laboratórios
que a abrigam, pois mantém
a equipe de profissionais
atualizados com os novos desenvolvimentos,
aumentando assim o status
da qualidade da coleção.
Com o desenvolvimento acelerado
da biotecnologia, nos últimos
anos, novos desafios vêm
sendo apresentados aos profissionais
atuantes nesta área
(Canhos & Manfio, 2001),
demandando das coleções
de serviço uma evolução
rápida no sentido de
se adequarem às novas
tarefas, incluindo conhecimentos
em genômica e metagenômica,
sistemas de armazenamento
em larga escala e informatização
de acervos.
Em síntese, a operação
e o gerenciamento de coleções
microbiológicas de
serviço são
processos bastante laboriosos
que requerem capacitação
técnica especializada
e infra-estrutura específica,
e merecem atenção
especial com relação
às práticas
de controle de qualidade,
biossegurança e autenticação
de seus acervos.
Controle de qualidade e autenticação
de acervos
A procura por material biológico
em coleções
reconhecidas se deve principalmente
ao fato de que estas coleções
possuem como procedimentos
de rotina a realização
de testes de controle de qualidade
e autenticação
do material. Portanto, as
coleções microbiológicas
que oferecem serviços
públicos devem necessariamente
operar dentro de um sistema
rigoroso de qualidade, de
preferência dentro de
reconhecidos sistemas de acreditação
(e.g, ISO 17025), e de acordo
com os princípios gerais
de Boas Práticas de
Laboratório (Good Laboratory
Practice, GLB).
Durante o processamento de
uma amostra (cultura microbiana)
desde o seu registro de entrada
na coleção até
a sua saída (distribuição),
testes de controle de qualidade
são realizados em diferentes
etapas do processamento, visando
avaliação de
sua identidade, viabilidade
e pureza (Figura 1). Uma atenção
especial deve ser dada à
preparação e
esterilização
de meios de culturas e reagentes
considerados como fatores
essenciais para o crescimento
e manutenção
de materiais biológicos.
As coleções
devem definir protocolos padrões
para todas as preparações
onde as formulações
dos meios devem estar devidamente
documentadas. Reagentes e
meios preparados devem ser
etiquetados com dados de validade
definidos e claramente indicados.
A autenticação
da cultura microbiana pela
coleção é
um procedimento indispensável,
visto que, uma cultura pode
ser depositada como sendo
um determinado microrganismo
e na verdade ser outro, que
pode ou não se enquadrar
no escopo da coleção.
Qualquer coleção
de microrganismo que realiza
autenticação
de seu acervo sabe que este
é um fato que pode
ocorrer, até mesmo
quando a linhagem é
originária de coleções
internacionais de renome.
A confirmação
da identificação
taxonômica de uma cultura
a ser depositada, requer muitas
vezes, a avaliação
de um especialista de competência
na área. Em adição,
qualquer material que chega
na coleção precisa
ser tratado como potencialmente
perigoso, até que sua
identificação
ou autenticação
seja confirmada.
Um outro aspecto importante
é a avaliação
da viabilidade celular do
material biológico
microbiano frente aos métodos
de preservação
utilizados, a qual deve ser
realizada rotineiramente,
uma vez que os microrganismos
podem responder de maneira
diferente aos diferentes métodos.
Para tanto, as coleções
devem realizar contagem celular
antes e após o processamento
da amostra de forma a possuir
um controle periódico
do método de preservação
para cada organismo do acervo.
Programas de monitoramento
de contaminação,
que inclua a avaliação
do ar dos ambientes internos
e manutenção
de uma rotina de limpeza de
laboratórios e equipamentos,
são fatores fundamentais
no controle de contaminação
biológica e precisam
ser realizados periodicamente
por uma equipe autorizada
e treinada que faça
uso de equipamentos de proteção
pessoal apropriados e seguindo
procedimentos documentados.
O fornecimento de material
biológico não
conforme (e.g., culturas com
identificação
incorreta, microrganismos
contaminados) por uma coleção
pode acarretar sérios
problemas, com conseqüências
irreparáveis para seus
clientes como as indústrias
de alimentos, farmacêuticas,
químicas, eletrônicas,
entre outras. A produção
desses setores depende do
fornecimento de linhagens
puras e autenticadas para
assegurar as características
de seus produtos (e.g., tipos
de cerveja, vacinas de qualidade,
biocidas eficazes, cosméticos
microbiologicamente seguros).
No caso de linhagens microbianas,
a distribuição
sem um controle que assegure
sua autenticidade, pureza
e propriedade específica
pode induzir, como exemplo,
a uma avaliação
errônea da atividade
de antimicrobianos e, por
conseguinte, acarretar sérias
conseqüências,
tais como: cosméticos
deteriorados ou mal conservados,
tintas com proteção
ineficiente contra fungos
e bactérias, levando
prejuízo para todos
os setores envolvidos, inclusive
o cliente final. Ainda, a
utilização de
organismos errados em investigações
científicas pode gerar
alto consumo de tempo, os
custos podem ser altos e conduzir
à publicação
de resultados inválidos.
Portanto, é de inteira
responsabilidade de uma coleção
de serviço a garantia
da qualidade de seu acervo,
e para isto as coleções
microbiológicas devem
operar com base em padrões
apropriados para que o material
biológico microbiano
possa ser certificado, garantindo
ao cliente (consumidor) padrão
de qualidade, manutenção
do potencial biotecnológico
(estabilidade genética)
e autenticidade.